Viajando de carro de Campo Grande a São Gabriel do Oeste, MS, foi possível admirar ao longo da estrada vários ipês amarelos. Cobertos de flores se impunham por sua exuberante beleza. Contrastavam com a vegetação castigada pelo sol e pela seca. Há cento e vinte dias não chovia na região. Pastagens secas, restos de plantações, a poeira e a fumaça das queimadas davam ao céu a cor amarelada da tristeza pela ausência de chuva. Nesses momentos não há como impedir as canções de Luiz Gonzaga, expondo o lamento do sertanejo assolado pela seca. Estamos no Centro Oeste deste país continental. Em qualquer região a seca significa miséria, sofrimento, dor e fome. Apesar da proximidade do pantanal, o calor causticante impõe seu poder à fragilidade humana. 

 

Antigamente secas significavam castigos divinos sobre a rebeldia humana. As Igrejas oravam pedindo chuva. Os salvos reconheciam seus pecados e admitiam a necessidade de confissão e perdão.

Hoje com o advento dos Institutos de Meteorologia e seus sofisticados e potentes computadores, tenta-se explicar as mudanças climáticas pelos fenômenos el Niño ou el Niña. As ações divinas são descartadas. Os milagres bíblicos têm explicações naturais. Até a passagem do povo de Deus pelo Mar Vermelho é creditada a um vento de 100 km/h, durante doze horas. Os cientistas só não explicam como Moisés, o povo e o Faraó que expulsou os israelitas do Egito, descobriram o momento exato para aproveitar a ventania. A parte seca durava apenas quatro horas. É muita coincidência para não admitir o agir divino.

 

Os ipês amarelos, roxos e brancos inundam de beleza os olhos dos viajantes neste período que antecede a primavera. A floração ocorre no final do inverno. No mês mais triste do ano, agosto. Pródiga, a natureza diz que há vida, apesar do inverno. Há beleza apesar do frio e da ausência de chuva. Há esperança apesar do pó que o vento ergue da terra gretada pela canícula do sol.  

 

Aficionado por flores, eu, e por fotografias, minha esposa, combinamos que ao retornar na segunda feira faríamos algumas paradas para fotos. Máquina preparada, descobrimos que os ipês haviam “desaparecido”. Encontramos apenas restos de flores murchas. O calor e o sol inclemente se encarregaram de destruir os nossos sonhos de belas fotos. Restaram-nos apenas as imagens guardadas na retina, mas sem possibilidade de revelação. Em três dias a natureza executou com perfeição mensagem de Isaías 40:7-8. O “hálito!” quente do Senhor testificava mais uma vez quão efêmera a vida e os nossos sonhos. As flores murcharam e caíram. Não suportaram a elevada temperatura do Centro Oeste.

 

Aqueles ipês não estavam plantados junto aos ribeiros de águas, descritos pelo Salmo 1:3 e Jeremias 17:7-8, que apesar da ausência de chuva continuavam viçosos e floridos. Não! Germinaram em terra seca. Cresceram em lugares áridos. Mesmo assim floresceram oferecendo beleza ao ambiente. Flores frágeis, mas belas que cumpriam o círculo da vida, alegrando os olhos dos viajantes.

 

A ausência das flores e das fotos nos proporcionou preciosas e antigas lições. Em muitos momentos da vida estamos plantados junto aos ribeiros de águas cristalinas. Tudo é fácil. Há fartura e alegria. Não existem preocupações. Não há perigos a rondar o nosso caminhar diário. Não há esforços para florir e frutificar. A vida nos sorri e sorrimos para a vida. Devemos aproveitar tais momentos para o exercício da gratidão. São dádivas que não podem ser esquecidas.

 

Mas, sempre há um, MAS, a vida nos conduz por caminhos áridos. Não há água. A chuva escasseia e tudo perde o colorido. Ao redor persiste ambiente lúgubre e triste. A vegetação sucumbe ao calor do sol. O ambiente se apresenta poluído pela poeira e fumaça dos sonhos queimados na luta pela sobrevivência. À mente chega a mensagem de que não compensa florir em tal situação.  

As flores subsistirão por pequenos momentos e serão esquecidas. Prevalece a certeza que não serão lembradas. Pois não as registramos para expô-las no futuro. Apenas o desalento preenche a alma na busca de melhores dias.

 

A esse agir triste os ipês amarelos oferecem o desafio: Compensa florir. A brevidade da vida não é desculpa para não florir. A fragilidade da flor não estimula o fracasso. Por um lapso de tempo muitos transeuntes foram enriquecidos com a florada dos ipês amarelos. Aos que planejaram voltar para fotografá-los; as flores caídas diziam que a vida e as oportunidades não retrocedem. Cada momento é único e deve ser vivido em toda a sua intensidade. Aprendemos a lição de sempre: O Senhor que veste os ipês com flores, que duram tão pouco, cuida dos seus com igual carinho. Florescer junto às águas cristalinas ou no cerrado é desafio. Importante ser bênção em qualquer situação. A Deus nossa gratidão pelas flores dos ipês amarelos que comprovam a fragilidade da vida.    

 

Pastor Júlio Sanches